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Nesta seção, vamos compartilhar vários temas relacionados com a apologética, como o celibato sacerdotal, proibições alimentares para os cristãos, o dízimo, etc.

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Deus castiga ou não castiga?

Por José Miguel Arráiz

Tradução: Carlos Martins Nabeto (apologeticacatolica.com.br)

Você pode lê-lo em Português, Inglês, Espanhol

La Santa muerteJá há algum tempo, acompanhado de minha esposa no meu encontro mensal de Casais com Cristo, ouvimos de um de nossos companheiros de grupo a frase “Deus não castiga”. E há alguns meses atrás, um leitor me perguntava se era certo que Deus não castigava, porque havia ouvido o conhecido apologista católico Frank Morera afirmar isso em uma pregação. Inclusive, não é difícil encontrar Páginas católicas sustentando o mesmo; e em um programa de Alejandro Bermúdez, diretor da ACIPrensa, cujo trabalho a serviço da Igreja é inquestionável, este cometeu o mesmo erro ao sustentar que Deus não castiga nunca. A ideia se difundiu tanto entre o povo católico, que muitos ficaram perplexos quando ouviram o Papa Bento XVI afirmar que o mundo poderia ser castigado por se afastar de Deus, em sua homilia durante a abertura da XII Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, em 5 de outubro de 2008[1]. O Papa, no entanto, não estava dizendo nenhuma novidade, pois a noção de que Deus pode castigar é constante no Magistério dos seus predecessores e no Magistério da Igreja Universal de todos os tempos. O Papa João Paulo II, em sua Audiência Geral de 13 de agosto de 2003, falou que Deus efetivamente castiga, tal como diz o livro de Tobias: “Deus castiga e tem compaixão[2].

É por isso - e com todo o respeito que meus amigos católicos merecem, inclusive Frank Morera e Alejandro Bermúdez, cujos trabalhos apologéticos em prol da Igreja são inestimáveis - que é importante esclarecer a questão, já que este é um erro que provém da ideologia progressista que induziu muitas pessoas a graves erros e, inclusive, a negar a existência do inferno (que é dogma de fé), ou ainda pior, negar a necessidade do sacrifício expiatório de Cristo na cruz.

ESCLARECENDO A TERMINOLOGIA

Diz o bordão escolástico: “De definitionibus non est disputandum” (“as definições não se discutem”), porque as questões terminológicas são de segunda ordem em relação às questões de fundo ou de conteúdo, e porque cada um tem o direito de escolher sua própria terminologia dentro de certos limites. No entanto, é importante que quando se faz uso de alguma terminologia, explique-se de maneira clara o que se quer dizer com ela, evitando assim equívocos e maus entendidos.

No caso da palavra “castigo”, temos que distinguir o que realmente significa a palavra e a forma com que a entendem muitas pessoas. Frank Morera, por exemplo, entende assim:

Deus não castiga. Aquele que conhece o coração de Deus sabe que Deus não castiga. Deus é um pai e um bom pai... um bom pai não castiga, um bom pai corrige (...) É impossível que Deus castigue, pois o castigo vem do ódio e em Deus não há lugar para ódio; ao contrário, a correção vem do amor. Deus, que é nosso Pai, só quer a nossa edificação; por isso nos corrige”.

Comecemos por esclarecer isto: não é certo que o castigo esteja vinculado com o ódio, nem no que se refere ao seu significado, nem na Escritura, nem no ensino tradicional da Igreja. Vejamos:

O SIGNIFICADO DE "CASTIGO" SEGUNDO O DICIONÁRIO

O dicionário da Real Academia Espanhola define “castigo” como:

CASTIGO (de 'castigar') - (1) s.m. Pena que se impõe a quem cometeu um delito ou falta. (2) s.m. Emenda, correção de uma obra ou escrito. (3) Chile: ação e efeito de castigar (‖ reduzir gastos). (4) ant. Repreensão, aviso, conselho, advertência ou correção. (5) s.m.ant. Exemplo, advertência, ensino; ser ~ de algo. (1) loc. verb. Ser penoso ou árduo”.

“CASTIGAR (do latim 'castigāre') - (1) v.tr. Executar algum castigo sobre um culpado. (2) v.tr. Mortificar, afligir. (3) v.tr. Estimular um cavalo com o chicote ou com as esporas para que acelere a marcha. (4) v.tr. Aprender com os próprios erros ou com os erros dos outros para se evitar cair neles (‖ corrigir com rigor a quem errou). (5) v.tr. Corrigir ou emendar uma obra ou um escrito. (6) v.tr. Reduzir gastos. (7) v.tr. Namorar por puro passatempo ou orgulho. (8) v.tr.ant. Advertir, prevenir, ensinar. (9). v.pron.ant. Emendar-se, corrigir-se, abster-se.

Observe-se que além de não vincular o castigo com o ódio, em alguns contextos o castigo é sinônimo de correção, ainda que Frank Morera contraponha ambos os conceitos como excludentes ao sustentar que Deus não castiga mas corrige. Entendido assim, certamente Deus não castiga, porque Deus é amor e NELE não há ódio; porém, esse não é o significado da palavra "castigo".

O erro que outras pessoas cometem é, no entanto, ainda mais grave, porque já não se baseia em uma má compreensão do termo, mas na negação direta da justiça divina, entendendo-a incompatível com Sua misericórdia.

Papa João Paulo II explicou o castigo divino da seguinte forma:

Ao mal moral do pecado corresponde o castigo, que garante a ordem moral no mesmo sentido transcendente em que esta ordem foi estabelecida pela vontade do Criador e Supremo Legislador. Daqui se segue também uma das verdades fundamentais da fé religiosa, baseada igualmente na Revelação; ou seja, que Deus é juiz justo, que premeia o bem e castiga o mal: « Vós, Senhor, sois justo em tudo o que fizestes; todas as vossas obras são verdadeiras, rectos os vossos caminhos, todos os vossos juízos se baseiam na verdade, e tomastes decisões conforme a verdade em tudo o que fizestes que nos sobreviesse e à cidade santa dos nossos pais, Jerusalém. Sim, em verdade e justiça nos infligistes todos estes castigos por causa de nossos pecados” (João Paulo II, Salvifici Doliris, 10)

O CASTIGO DIVINO NA BÍBLIA

Tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento encontramos a noção do castigo divino, porém neste caso há que se distinguir entre o "castigo temporal" (cujo caráter é medicinal, buscando-se a correção do pecador para que se converta e se salve) e o “castigo eterno” (que faz parte da justiça divina como retribuição à rejeição definitiva do amor de Deus).

1) O castigo eterno

Que exista um castigo eterno comunicado por Deus é algo que não se pode duvidar às custas de negar praticamente toda a Bíblia e o Magistério da Igreja. Jesus Cristo o afirma claramente ao tratar daqueles que se condenam:

E irão estes (os ímpios) para um castigo eterno e os justos para uma vida eterna” (Mateus 25,46).

Alguém dirá que não é Deus quem castiga, mas sim a própria pessoa que se castiga; porém, isto também é incorreto. A pessoa efetivamente escolhe seu destino eterno com base nas suas próprias decisões, porém é Deus que, como Supremo Legislador, dita a sentença e estabelece a pena:

Pela dureza e a impenitência do teu coração vais reunindo contra ti cólera para o dia da cólera e da revelação do justo juízo de Deus, o qual dará a cada um segundo as suas obras: aos que, pela perseverança no bem buscam glória, honra e imortalidade: a vida eterna; mas aos rebeldes, indóceis à verdade e dóceis à injustiça: a cólera e indignação” (Romanos 2,5-8);

Porque é necessário que todos nós estejamos a descoberto perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba conforme o que fez durante a sua vida mortal: o bem ou o mal” (2Coríntios 5,10);

Pois conhecemos Aquele que disse: 'Minha é a vingança; eu darei o que é merecido'. E ainda: 'O Senhor julgará o seu povo'” (Hebreus 10,30);

Em meio a uma chama de fogo, faz vingança aos que não conhecem a Deus e aos que não obedecem o Evangelho de nosso Senhor Jesus” (2Tessalonicenses 1,8).

2) O castigo temporal ou medicinal

A Bíblia frequentemente vê o castigo temporal como um meio medicinal para purificar o pecador ou convidá-lo à conversão. A própria Igreja em sua disciplina sobre a excomunhão castigava com caráter misericordioso e medicinal, excluindo da comunhão eclesial àqueles cujas faltas o condenavam, para que viessem a se converter. Um exemplo encontramos em 1Coríntos, onde São Paulo castiga com a excomunhão um dos membros da Igreja que vivia em adultério:

Só se ouve falar de imoralidade entre vós e uma imoralidade tal que não ocorre nem entre os gentios, chegando ao ponto de um de vós viver com a mulher de seu próprio pai. Pois bem: eu, da minha parte, embora corporalmente ausente mas presente em espírito, julgo imediatamente, como se me encontrasse presente, aquele que assim agiu: que em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito com o poder de Jesus, Senhor nosso, seja entregue esse indivíduo a Satanás, para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no Dia do Senhor” (1Coríntios 5,2-5).

No entanto, na carta seguinte, São Paulo explica que o castigo buscava alcançar a conversão [daquele indivíduo] e convida [a comunidade] a perdoá-lo:

Bastante é para ele o castigo infligido pela comunidade, de modo que é melhor agora, pelo contrário, que o perdoeis e o animeis, para que não mergulhe em um profunda tristeza” (2Coríntios 2,6-7).

Encontramos outro exemplo no Catecismo da Igreja Católica, que diferencia o castigo dos condenados do castigo temporal que recebe as almas do Purgatório:

A Igreja chama 'Purgatório' a esta purificação final dos eleitos, que é totalmente diferente do castigo dos condenados” (CIC 1031).

No Antigo Testamento abundam os exemplos de castigos da parte de Deus, que têm tanto caráter medicinal quanto a finalidade de comunicar a justa retribuição da parte de Deus pelo pecado. Entre eles, podemos mencionar a destruição de Sodoma e Gomorra; o Dilúvio; a ameaça de destruição de Nínive; as pragas do Egito; o castigo de Davi por ter cometido adultério e assassinado o hitita Urias etc.

E o Novo Testamento não é exceção. São Paulo, por exemplo, fala de como aqueles que recebiam indignamente a Eucaristia eram castigados com doenças e, inclusive, com a morte:

Pois quem come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe seu próprio castigo. Por isso há entre vós muitos doentes e muitos fragilizados, e não poucos morrem” (1Coríntios 11,29-30).

Menciona-se também o castigo de Herodes, por ele não ter reconhecido a glória de Deus, adoecendo até a morte:

“No dia combinado, Herodes, vestido com as vestes reais e sentado no seu pódio, os incentivava, enquanto o povo aclamava: 'Voz de deus, não de homem!'. Imediatamente o anjo do Senhor feriu-lhe por não ter reconhecido a glória de Deus; e morreu devorado por vermes” (Atos 12,21-23).

Consta também o castigo de Ananias e Safira por terem mentido ao Espírito Santo:

“Um homem chamado Ananias, em conluio com sua mulher, Safira, vendeu uma propriedade e reteve consigo uma parte do preço, com o conhecimento da sua mulher; trouxe a outra parte e a depositou aos pés dos Apóstolos. Pedro lhe disse: 'Ananias, como é que Satanás encheu o teu coração para mentir ao Espírito Santo e manter contigo uma parte do preço do campo? Seria porque enquanto o possuías, não era teu e uma vez vendido não poderias dispor do preço? Por que determinaste em teu coração fazer isto? Não mentiste aos homens, mas a Deus'. Ao ouvir estas palavras, Ananias caiu e expirou. E um grande temor se abateu sobre todos que ouviram isto. Levantaram-se os jovens, o enrrolaram e o levaram para enterrar. Cerca de três horas depois, sua mulher, que ignorava o que havia se passado, entrou. Pedro lhe perguntou: 'Diz-me: vendestes o campo por tal valor?' Ela respondeu: 'Sim'. E Pedro lhe replicou: 'Por que entrastes em conluio para pôr à prova o Espírito do Senhor? Olha: aqui à porta estão os pés daqueles que enterraram o teu marido; e eles também levarão a ti'. No mesmo instante ela caiu aos seus pés e expirou. Entrando os jovens, a encontraram morta e a levaram para enterrar junto de seu marido” (Atos 5,1-10).

É tão absurdo negar que Deus castiga, que isso implica negar os próprios Mandamentos divinos, pois neles Deus menciona a clara possibilidade de castigar aqueles que O desobedecem:

“Não pronunciarás em vão o nome do Senhor, teu Deus, porque Ele não deixará sem castigo a quem o pronunciar em vão” (Êxodo 20,7).

Por isso, antes de continuar, insisto que deve ficar claro que o castigo temporal não exclui mas compreende a correção, tal como está claro na Escritura:

“Castigando a culpa, educas o homem e róis como traça os seus tesouros. O homem não é nada mais do que um sopro” (Salmo 39,12).

“Assim como usa de misericórdia, Ele também castiga; Ele julga o homem segundo as suas obras” (Eclesiástico 47,13).

“O castigo e a repreensão acarretam sabedoria; porém, o jovem abandonado aos seus desejos é o estorvo de sua mãe” (Provérbios 29,15).

“Porque o Senhor castiga aqueles a quem ama e nos quais colocou o Seu afeto, tal como um pai em relação aos seus filhos” (Provérbios 3,12).

“Se bem quando o somos, o Senhor nos castiga como que a filhos, com o fim de que não sejamos condenados juntamente com este mundo” (1Coríntios 11,32).

“Mas vos esquecestes já das palavras de consolo que Deus vos dirige como que a filhos, dizendo na Escritura: 'Meu filho: não desprezes a correção ou o castigo do Senhor, nem te desanimes quando Ele te repreende'” (Hebreus 12,4).

“Porque o Senhor castiga aquele a quem ama e açoita a qualquer um que recebe como seu filho, provando-o com adversidades” (Hebreus 12,5).

Ademais, este castigo que Deus impõe ao pecador não é tão somente um meio corretivo ou intimidatório, mas também visa a expiação da ofensa inferida a Deus e a restauração da ordem moral perturbada pelo pecado[3].

O CASTIGO NA IGREJA PRIMITIVA

A Igreja primitiva interpretou de igual maneira o castigo eterno como retribuição pelas ações pecaminosas não contritas por parte da justiça divina e o castigo temporal como correção medicinal para convidar o pecador à conversão:

1) Clemente de Roma (ano 107)

São Clemente Romano, que foi ordenado sacerdote pelo próprio São Pedro e foi também bispo de Roma, escreve em sua Carta aos Coríntios uma exortação onde o castigo vincula-se diretamente à correção e à disciplina:

“Aceitemos a correção e a disciplina, pelas quais ninguém deve se sentir incomodado, mas amados. A advertência que fazemos uns aos outros é boa e altamente útil porque nos une à vontade de Deus. Porque assim diz a santa Palavra: 'O Senhor certamente me castigou, mas não me entregou à morte. Porque o Senhor repreende a quem ama e açoita todo filho a quem recebe. Porque o justo' - está dito - 'me castigará em misericórdia e me repreenderá; contudo, não seja a minha cabeça ungida pela misericórdia dos pecadores'. E diz também: 'Bem-aventurado é o homem a quem Deus corrige e não menospreza a correção do Todo-Poderoso. Porque é Ele quem fere e quem fecha a ferida; Ele fere e suas mãos curam. Em seis tribulações te livrará da aflição e na sétima o mal não te tocará. Na fome te salvará da morte e na guerra te livrará do braço da espada. Do açoite da língua Ele te guardará e não terás medo dos males que se aproximam. Rirás dos maus e dos injustos, e das feras não terás temor, pois as feras estarão em paz contigo. Então saberás que haverá paz na tua casa e a habitação da tua tenda não irá mal. E saberás que a tua descendência é numerosa e a tua prole como a erva do campo. Chegarás idoso ao sepulcro, como um feiche colhido no fim da estação ou como o monte na eira, recolhido no seu devido tempo'. Como podeis ver, amados, grande é a proteção daqueles que foram disciplinados pelo Senhor; porque sendo um bom pai, nos castiga com vistas a que possamos obter misericórdia através do seu justo castigo” (Carta aos Coríntios 56).

2) O Pastor de Hermas (ano 141 a 155):

“O Pastor” de Hermas é um livro que foi muito apreciado pela Igreja primitiva, ao ponto de alguns Santos Padres considerarem-no canônico. Graças ao "Fragmento de Muratori" (um pergaminho do ano 180 que reporta a lista dos livros inspirados, descoberto e publicado no século XV), sabemos que foi composto por um tal Hermas, irmão do Papa Pio I, na cidade de Roma. Nesta obra, que reflete o pensamento cristão mais primitivo, encontramos como também o castigo temporal se relaciona com a correção que busca a conversão:

“Porém, Hermas, já não guardes rancor contra os teus filhos, nem permitas que a tua irmã faça o que quiser, para que possam ser purificados dos seus pecados anteriores. Porque eles serão castigados com justo castigo, a menos que lhes guardes rancor tu mesmo” (O Pastor, Visão 2, Parábola 6, 3).

“'Porque um homem é atormentado durante tantos anos quantos dias viveu na autoindulgência. Vês, pois, que o tempo de autoindulgência e de engano é bem curto, porém o tempo do castigo e do tormento é longo' - disse-me” (O Pastor, Visão 5, Parábola 6, 4).

3) Epístola de Barnabé (ano 130)

Este tratado cristão primitivo foi atribuído desde o início da Igreja a Barnabé, o colaborador de São Paulo. Nele adverte-se que Deus castigará com a condenação eterna aqueles que morrem em pecados graves, como idolatria, adultério, assassinato, roubo etc.:

“Mas o caminho das 'trevas' é sinuoso e cheio de maldição, pois é caminho com castigo de morte eterna, em que se encontram as coisas que fazem perder a alma daqueles que o seguem: idolatria, temeridade, altivez de poder, hipocrisia, duplicidade de coração, adultério, assassinato, roubo, soberba, transgressão, engano, maldade, arrogância, feitiçaria, magia, avareza, falta de temor de Deus” (Epístola de Barnabé 20,1).

4) Martírio de Policarpo (ano 156 a 177)

Escrito cristão primitivo que narra o martírio de São Policarpo, o qual fôra discípulo direto do Apóstolo São João. Narra-se nele como os cristãos preferiam morrer a sofrer o castigo divino:

“E prestando atenção à graça de Cristo, desprezavam as torturas do mundo, adquirindo ao custo de uma hora o ser livrados de um castigo eterno” (Martírio de Policarpo 3).

CONCLUSÕES

A noção de que Deus não castiga está fundamentada, em alguns casos, na má compreensão do significado da palavra "castigo", e em outros casos, numa noção superficial e deficiente do amor de Deus. Como explica São Tomás [de Aquino], Deus é amor e quer que todos se salvem; porém, também é justo e, como tal, também deseja castigar aquele que peca. Ambas as coisas não se excluem:

“Deus quer com vontade antecedente salvar todo homem; e com vontade consequente, e por sua justiça, quer castigar alguns” (Suma Teológica, L.1, q.19, a.7).

Deus pode castigar para nos corrigir, não por ódio mas precisamente por amor, como o fazemos com nossos filhos e como exemplifica Santo Agostinho:

 “Nem é outra a forma como castigamos nossos filhos, isto é, zangados e indignados; porém, não os castigaríamos se não os amássemos” (Sermão 82,2).

É o próprio Jesus Cristo quem nos adverte a cada um de nós:

“Aquele servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não preparou nada nem agiu conforme a sua vontade, receberá muitos açoites” (Lucas 12,47).

Isto não é castigo? Alguns dirão que é “correção”. Mas eu digo que neste caso, ambos são a mesma coisa...

ATUALIZAÇÃO

Em relação a este artigo, alguns leitores me perguntaram se as doenças, os desastres naturais e os acidentes são castigos de Deus. Quanto a isto, deve-se responder que NÃO. Que Deus castigue é uma coisa; outra coisa bem diferente é assumir que as doenças, os desastres naturais e os acidentes sejam castigos de Deus. Uma coisa não implica necessariamente na outra, ainda que Deus possa recorrer a algum desses acontecimentos para castigar determinada circunstância se a Sua vontade assim o determine. No Evangelho, por exemplo, perguntam a Jesus se a cegueira de uma certa pessoa era castigo do pecado cometido por ele ou por seus pais; e Jesus responde 'não' para ambas as hipóteses:

 “Ao passar, viram um cego de nascimiento. E seus discípulos perguntaram: 'Rabi: para que ele tenha nascido cego, quem pecou: ele ou seus pais?' Jesus respondeu: 'Nem ele pecou, nem os pais dele; isto se deu para que se manifestem nele as obras de Deus'.” (João 9,1-3)

No entanto, em outro texto, vê-se que a doença que levou Herodes à morte foi um castigo pelo seu pecado (Atos 12,21-23).

Creio simplesmente que, se não for por uma especial revelação, não será possível saber se determinada doença é castigo de Deus ou apenas um fato de outra natureza.

NOTAS

[1] Quanto a isto, dizia o Papa Bento XVI: “Se contemplamos a História, nos vemos obrigados a constatar frequentemente a frieza e a rebelião de cristãos incoerentes. Como consequência disto, Deus, ainda sem faltar jamais à sua promessa de salvação, teve que recorrer com frequência ao castigo” (Homilia do Papa Bento XVI na abertura da XII Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, de 5 de outubro de 2008).

[2] Explica o Papa João Paulo II: “A própria história de Jerusalém é uma parábola que ensina a todos a escolha que se deve fazer. Deus castigou a cidade porque não poderia permanecer indiferente ante o mal realizado pelos seus filhos. Porém agora, ao ver que muitos se converteram e se transformaram em filhos justos e fiéis, manifestará ainda o Seu amor misericordioso (cf. versículo 10). Ao longo de todo o cântico do capítulo 13 de Tobias, repete-se frequentemente esta convicção: o Senhor 'castiga e tem compaixão... vos castigou pelas vossas injustiças, mas tem compaixão de todos vós... te castigou pelas obras dos teus filhos, porém tornará a se apiedar do povo justo' (versículos 2.5.10). Deus recorre ao castigo como meio para chamar ao reto caminho os pecadores surdos a outras chamadas. No entanto, a última palavra do Deus justo continua sendo a do amor e do perdão; seu desejo profundo é poder abraçar novamente os filhos rebeldes que retornam para Ele com o coração arrependido” (Audiência Geral do Papa João Paulo II, na 4ª-feira, 13 de agosto de 2003).

[3] “O castigo que Deus impõe ao pecador não é tão somente um meio corretivo ou intimidatório, como ensinaram B.Stattler (1797) e J.Hermes (1831), mas busca, antes de mais nada, a expiação da ofensa inferida a Deus e a restauração da ordem moral perturbada pelo pecado: 'Eu retribuirei os meus inimigos com a minha vingança e darei o merecido àqueles que me aborrecem' (Deuteronômio 32,41); 'Está escrito: 'Em minha vingança Eu farei justiça - diz o Senhor'' (Romanos 12,19). A pena do inferno, por sua duração eterna, só pode ter caráter vingativo para os condenados (cf. Mateus 25,41.46). Por outro lado, não se há que exagerar excessivamente o caráter vingativo dos castigos divinos, como se Deus se visse obrigado por sua própria justiça a não perdoar o pecado até obter uma satisfação plena, como ensinaram - seguindo o exemplo de Santo Anselmo de Cantorbery (+1109) - H.Tournely (1729) e fr. X.Dieringer (1876). Como Deus é soberano e senhor universal, e não precisa prestar contas a nenhum poder superior, tem Ele o direito de ser clemente, o que significa que é livre para perdoar os pecadores arrependidos sem que estes ofereçam uma satisfação côngrua ou até mesmo sem satisfação nenhuma.” (OTT, Ludwig. “Manual de Teologia Dogmática”. Barcelona: ed. Herder, 1966, p.41)

 

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