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Nesta seção, vamos compartilhar vários temas relacionados com a apologética, como o celibato sacerdotal, proibições alimentares para os cristãos, o dízimo, etc.

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Sábado e Domingo na Igreja Primitiva

Por José Miguel Arráiz

Tradução: Carlos Martins Nabeto (apologeticacatolica.com.br)

Você pode lê-lo em Português, Inglês, Espanhol

Igreja Primitiva

Algumas denominações protestantes de linha adventista sustentam que a Igreja Cristã tornou-se apóstata quando substituiu, como Dia do Senhor, o sábado pelo domingo. Segundo eles, os primeiros cristãos guardavam o sábado, mas por ocasião da conversão do Imperador Constantino no século IV, este alterou o dia de repouso do sábado para o domingo, para tornar o Cristianismo mais aceitável pelos pagãos, que neste dia adoravam o deus Sol.

Um exemplo deste tipo de argumentação encontrei na página “sabadobiblico.com”, no artigo “Como o sábado foi mudado”. Aqui sustentam que:

“Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, não há mínima sombra de variação na doutrina do sábado... Jesus não apenas foi um perfeito exemplo na observação do sétimo dia de repouso, como também seus discípulos seguiram o mesmo padrão após Jesus ter regressado ao céu.”

Depois também afirmam:

“Para que fosse mais conveniente para eles (=os pagãos) mudarem para a nova religião, Constantino aceitou o seu dia de culto - o domingo - ao invés do sábado dos cristãos, que tinha sido observado por Jesus e seus discípulos... Portanto, fica mais fácil de compreender como a mudança se impôs sobre o Cristianismo através de uma lei civil rigorosa, expedida por Constantino como imperador de Roma.”

A OBSERVÂNCIA DO SÁBADO NO NOVO TESTAMENTO

O dia da ressurreição de Cristo - o domingo - foi para os primeiros cristãos o cumprimento da palavra profética daquele Salmo do Antigo Testamento, onde o Messias, após ser rejeitado pelo seu próprio povo, se converte na pedra angular da Igreja e nos traz a libertação sobre o pecado e a morte:

“A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular; esta foi a obra de Yahveh, uma maravilha para os nossos olhos. Este é o dia que Yahveh fez: regozijemos e Nele exultemos.”[1]

Em razão disso, vemos como os primeiros cristãos começam a se reunir e a celebrar a Eucaristia no domingo, o primeiro dia da semana, tal como encontramos em Atos 20,7 e 1Coríntios 10,2. O Novo Testamento não menciona nem uma única vez que os primeiros cristãos guardavam o sábado logo depois da ressurreição de Cristo[2].

Outro dado importante encontramos no capítulo 15 do livro dos Atos dos Apóstolos, onde se narra o primeiro grande conflito enfrentado pela Igreja primitiva. Este ocorre quando judeus-crentes chegaram à comunidade de Antioquia e se escandalizaram ao ver que os membros conversos não tinham sido circuncidados nem cumpriam outros preceitos das leis judaicas. Estas pessoas começaram a pregar que era necessária a circuncisão e a assimilação de toda a Torá, causando assim um grande espanto entre os primeiros crentes gregos. Em razão disso, foi realizado aquilo que se conhece como “Concílio de Jerusalém”, onde os Apóstolos se reúnem para tratar do assunto e, finalmente, tomam as seguintes decisões disciplinares:

“Decidimos, o Espírito Santo e nós, que não imporemos mais cargas além destas indispensáveis: abster-se do que foi sacrificado aos ídolos, do sangue, dos animais estrangulados e da impureza. Fareis bem de guardar estas coisas. Adeus.”[3]

Não há nenhuma menção em manter o sábado como dia de repouso, nem encontramos nenhuma outra ordem em todo o Novo Testamento que reitere a necessidade de o continuar guardando; ocorre exatamente o contrário, já que a insistência dos judeus-cristãos conversos não desapareceu imediatamente, de modo que São Paulo precisa insistir:

“Portanto, que ninguém vos critique por questões de comida ou bebida, ou a propósito de festas, novilúnios ou sábados.”[4]

“Este dá preferência a um dia sobre os demais; aquele considera todos iguais. Cada um se atenha à sua consciência!”[5]

A OBSERVÂNCIA DO SÁBADO NA IGREJA PRIMITIVA

A Epístola de Barnabé (96/98 d.C.)

A Epístola de Barnabé é um tratado cristão contendo 22 capítulos[6], escrito em grego, com algumas características de carta. É tradicionalmente atribuída a São Barnabé, o mesmo que aparece no livro dos Atos dos Apóstolos como colaborador e companheiro de São Paulo de Tarso. Foi conservada em um códice do Antigo e Novo Testamento - o Sinaítico - o que demonstra que foi muito apreciada pela Antiguidade Cristã, assim como outras obras como a Didaqué e o Pastor de Hermas, chegando a figurar no grupo dos livros que circulavam como divinamente inspirados antes que o cânon fosse definitivamente fixado[7]. A datação varia entre os anos 96/98 e 130/134[8].

Encontramos nesta epístola uma detalhada explicação da visão cristã primitica acerca de como, para os cristãos, o Dia do Senhor era o domingo, por ser o dia da ressurreição de Cristo:

“Por fim, [o Senhor] lhes disse: 'Não tolero vossos novilúnios e vossos sábados' [Isaías 1,13]. Observai como disse: 'Não aceito os vossos sábados de agora, mas aquele que Eu fiz, aquele em que, fazendo descansar todas as coisas, farei o início de um oitavo dia, isto é, o início de um outro mundo. Justamente por isso nós celebramos também o oitavo dia com regozijo, por ser o dia em que Jesus ressuscitou dentre os mortos e, depois de Se manifestar, subiu aos céus.”[9]

A “Didaqué” ou “A Doutrina dos Doze Apóstolos” (65/80 d.C.)

É um dos mais antigos escritos cristãos não-canônicos, pertencente ao grupo dos Padres Apostólicos, e considerado anterior a muitos escritos do Novo Testamento. Foi redigido entre os anos 65 e 80 da Era Cristã[10]. Encontramos nele uma breve menção à contínua celebração da Eucaristia a cada Dia do Senhor, como o sacrifício perpétuo agradável a Deus profetizado pelo profeta Malaquias:

Reunidos a cada Dia do Senhor, fracionai o pão e dai graças após terdes confessado os vossos pecados, a fim de que o vosso sacrifício seja puro. Portanto, todo aquele que tiver um contenda com o seu companheiro não se junte a vós até que não tenham se reconciliado, a fim de que não se profane o vosso sacrifício, porque este é o sacrifício do qual disse o Senhor: 'Em todo lugar e em todo tempo Me é oferecido um sacrifício puro, porque Eu sou grande Rei - diz o Senhor - e meu Nome é admirável entre as nações'. [Malaquias 1,11]”[11]

Inácio de Antioquia (+107 d.C.)

Discípulo de Pedro e Paulo, segundo bispo de Antioquia e mártir durante o reinado de Trajano por volta do ano 107 d.C.. Quando foi condenado à morte, ordenou-se que fosse conduzido da Síria para Roma, onde seria martirizado. No caminho para Roma, escreveu seté cartas dirigidas às igrejas de Éfeso, Magnésia, Trália, Filadélfia, Esmirna, Roma e, ainda, uma carta a São Policarpo [, bispo de Esmirna]. Quando escreveu aos magnésios, testemunhou que os cristãos não guardavam o sábado, mas o domingo:

“Pois bem. Se os que foram criados na antiga ordem das coisas vieram à novidade da esperança, não guardando o sábado mas vivendo segundo o domingo, dia em que a nossa vida amanheceu pela graça do Senhor e mérito da Sua morte - mistério que alguns negam. Sendo assim, por Ele recebemos a graça de crer e por Ele sofremos, a fim de sermos encontrados como discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre. Assim, como podemos nós viver fora Daquele sobre quem os próprios profetas - seus discípulos espirituais - esperavam como Mestre? Por essa razão, Aquele que justamente esperavam, tendo vindo, os ressuscitou dentre os mortos... É absurdo levar Jesus Cristo até vós e viver judaicamente, porque não foi o Cristianismo que acreditou no Judaísmo, mas o Judaísmo no Cristianismo, no qual se congregou toda língua que crê em Deus.”[12]

Justino Mártir (100-165 d.C.)

Mártir da fé cristã (por decapitação) em torno do ano 165, é considerado o maior apologista do século II.

Com São Justino ficou também firmemente atestado que era no domingo que os cristãos se reuniam para celebrar a Eucaristia. Um destes testemunhos encontra-se na sua Primeira Apologia[13], uma carta dirigida ao Imperador romano do seu tempo, em defesa dos cristãos que eram perseguidos:

No dia que se chama 'do sol' (=domingo) é celebrada uma reunião com todos os que moram nas cidades ou nos campos; ali são lidas, conforme o tempo o permita, as Memórias dos Apóstolos ou os escritos dos Profetas. Depois, quando o leitor termina, o presidente faz uma exortação oral e convida [a todos] que imitem esses belos exemplos. A seguir, todos nós nos levantamos e elevamos as nossas preces. E encerradas estas - como já dissemos - são oferecidos pão, vinho e água, e o presidente, segundo as suas forças, faz igualmente subir a Deus as suas preces e ações de graças; e todo o povo exclama: 'amém'. Então vem a distribuição e participação, que se faz a cada um, dos alimentos consagrados pela ação de graças; e o seu envio, através dos diáconos, aos ausentes.”[14]

Outra de suas obras, “Diálogo com Trifão”, transmite um de seus debates com um dos sábios judeus da época, e nele este sábio lhe atira na cara que os cristãos não guardavam nem a circuncisão, nem o sábado: “não guardais as festas [judaicas] e sábados, nem praticais a circuncisão”[15], aconselhando-o, em seguida, a obedecer a lei judaica:

“Se quereis, portanto, ouvir o meu conselho - pois já te tenho por meu amigo -, em primeiro lugar circuncida-te; depois, como é do nosso costume, observa o sábado, as festas e os novilúnios de Deus. Em uma palavra: cumpre aquilo que está escrito na Lei e, então, talvez possas alcançar misericórdia da parte de Deus.”[16]

São Justino reconhece que os cristãos não guardam o sábado e explica o porquê:

“Há alguma coisa mais que reprovais em nós, amigos, ou apenas se trata do fato de que não vivemos conforme a vossa Lei, nem circuncidamos a nossa carne como os vossos antepassados e nem guardamos os sábados como vós?”[17]

“Já é necessária a segunda circuncisão e vós continuais com o vosso orgulho da carne. a Nova Lei quer que guardeis o sábado continuamente e vós, passando [apenas] um dia sem fazer nada, já pensais que sois religiosos...”[18]

Porque também nós observaríamos essa circuncisão carnal e guardaríamos o sábado e todas as vossas festas se não soubéssemos a causa do por que foram ordenadas (...) Não as observamos porque essa circuncisão não é necessária para todos, mas apenas para vós. E sem o sábado também agradaram a Deus todos os justos anteriormente citados e, depois deles, Abraão e todos os filhos de Abraão até Moisés (...) Também, pois, o sábado vos foi ordenado por Deus para que vos lembrasseis Dele.”[19]

“Porque se antes de Abraão não havia necessidade da circuncisão e nem antes de Moisés do sábado, das festas e dos sacrifícios, tampouco há agora depois de Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido sem pecado de Maria Virgem, da linhagem de Abraão.”[20]

Assim, não resta dúvida, como base neste antigo diálogo entre um cristão e um judeu do século II, que já nessa época os judeus sabiam perfeitamente que os cristãos não guardavam o sábado e os cristãos reconheciam que não o faziam.

Tertuliano (160-220 d.C.)

Nasceu por volta do ano 160 e faleceu em torno do ano 220 d.C.. Tertuliano não é considerado Padre da Igreja, mas apologista e escritor eclesiástico de grande erudição. No fim da sua vida, caiu em heresia, abraçando o Montanismo; porém, era muito lido antes de abandonar a Igreja Católica. Menciona explicitamente o descanso dominical:

“Nós, no entanto, [segundo nos ensinou a Tradição] não devemos nos ajoelhar no dia da Ressurreição do Senhor (=domingo), mas devemos deixar de lado todos os afãs e preocupações, inclusive os nossos próprios negócios, a menos que queiramos dar guarida ao diabo.”[21]

Cipriano de Cartago (200-? d.C.)

Bispo de Cartago, nascido por volta do ano 200, possivelmente em Cartago, de família rica e culta. Dedicou-se, durante a juventude, à retórica. O desgosto que sentia diante da imoralidade dos ambientes pagãos em contraste à pureza de costumes dos cristãos o induziu a abraçar o Cristianismo em torno do ano 246. Pouco depois, em 248, foi eleito bispo. Ao estourar a perseguição de Décio, em 250, julgou melhor retirar-se para um outro lugar, a fim de continuar se ocupando com a sua grei.

Em uma carta dirigida a Fido, em que trata do batismo de crianças, menciona o domingo como Dia do Senhor, por ser o dia em que Cristo ressuscitou:

Como no oitavo dia - isto é, o dia que segue ao sábado - era o dia em que o Senhor deveria ressuscitar e nos dar a vida com circuncisão espiritual, por isso a Lei antiga observou aquele outro dia (=o sábado).”[22]

Além destes e de outros testemunhos, devemos acrescentar o Concílio local de Elvira, celebrado no ano 300, que em seu cânon 21 demonstra que o dia em que a Igreja se reunia era o domingo:

“Se alguém na cidade deixa de vir à igreja por três domingos, que seja excomungado por um curto espaço de tempo para que se corrija.”

CONCLUSÕES

O Imperador Constantino decretou a liberdade de culto pelo Edito de Milão no ano 313, porém vemos aqui testemunhos com mais de 250 anos de antecedência mostrando que os cristãos celebravam a Eucaristia no domingo e não guardavam o sábado. Os Adventistas e outras comunidades protestantes similares simplesmente omitem esta informação aos seus leitores, apresentando-lhes assim uma informação truncada. Seria possível supor que a desconhecessem, mas no caso do artigo apreciado, retirado da Página protestante, podemos observar que este não é caso, visto que citam a Enciclopédia Católica que não apenas menciona tudo isto, como afirma ainda que:

“O domingo era o primeiro dia da semana segundo o método de contagem dos judeus; porém, para os cristãos, começou a tomar o lugar do sábado judaico no período apostólico, como dia dedicado ao culto público e solene a Deus.”

Por outro lado, a citação que é atribuída à Enciclopédia Católica não foi possível encontrá-la. Trata-se, novamente neste caso, de uma história alternativa, fabricada por essas denominações protestantes para justificar as suas próprias doutrinas. O problema que traz à causa do Cristianismo é evidente. O pior é o problema moral em que incorre, fazendo uso de informação inexata para suportar as próprias doutrinas. Em segundo lugar, a história alternativa apresenta ao não-cristão um panorama de discórdia e confusão que não favorece a aceitação do Evangelho. Com o passar do tempo, os diversos revisionismos difundiram esta versão errônea da História que acabou promovendo divisões entre os crentes e o escândalo entre os não-crentes, resultando assim na perda de muitas almas. O cristão deve “permanecer na verdade”, como nos ordenou Jesus, sendo isto condição essencial para a nossa salvação, pois que ligação tem entre si a luz e a escuridão, a verdade e a mentira?[23]. Quem faz uso da história alternativa para afirmar suas doutrina pessoais ou para desacreditar as doutrinas originais da fé, coloca em evidência o seu próprio erro, colocando em perigo sua própria salvação e a de outras pessoas.

NOTAS

[1] Salmo 118,22-24

[2] Frequentemente observamos São Paulo entrar nas sinagogas aos sábado, porém para evangelizar os judeus que, por guardarem o sábado, se reuniam nesse dia (cf. Atos 13,14.44; 15,21; 18,4).

[3] Atos 15,28-29.

[4] Colossenses 2,16

[5] Romanos 14,5

[6] Podemos ler esta Carta na Internet em: Central de Obras do Cristianismo Primitivo.

[7] RUIZ BUENO, Daniel. "Padres Apostólicos". Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos. Nº 65, 1985, p. 731.

[8] Ibid., p. 753.

[9] Carta de Barnabé 16,8; ibid., p. 803

[10] Podemos ler esta obra na Internet em: Central de Obras do Cristianismo Primitivo.

[11] Didaqué 14,1-3; ibid., 91.

[12] Inácio de Antioquia, Carta aos Magnésios 9; 10,3; ibid., p. 464-465.

[13] Podemos ler esta Carta na Internet em: Apostolado Veritatis Splendor.

[14] Justino Mártir, "Primeira Apologia" 67. RUIZ BUENO, Daniel. "Padres Apologetas Griegos". Madri: Biblioteca de Autores Cristianos. Nº 166, 1996, p.258.

[15] Justino Mártir, “Primeira Apologia” 10,3. Ibid. p. 318.

[16] Justino Mártir, “Diálogo com Trifão” 8,4. Ibid., pp. 315-316.

[17] Justino Mártir, “Diálogo com Trifão” 10,1. Ibid., p. 317.

[18] Justino Mártir, “Diálogo com Trifão” 12,3. Ibid., p. 321.

[19] Justino Mártir, "Diálogo com Trifão" 18,2; 19,2.4. Ibid., pp. 331-333.

[20] Justino Mártir, "Diálogo com Trifão" 23,4. Ibid., p. 340.

[21] "Da Oração" 23; cf. "Às Nações" 1,13; "Apologético" 16. Enciclopédia Católica, verbete "Domingo".

[22] Cipriano de Cartago, Carta 58: a Fido sobre o bautismo de crianças. ARÁMBURU; ROLDÁN. "Obras de San Cipriano, Obispo y Mártir", Tomo 1. Valladolid, 1807, p. 262.

[23] 2 Corintios 6,14

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