Apologética patrística

Apologética patrística

Investigar a fé da Igreja primitiva e os padres da Igreja tem ajudado milhares de protestantes a perceber o erro dos reformadores em rejeitar a fé daqueles que receberam o evangelho diretamente dos apóstolos e seus sucessores.

Não falta no entanto, quem tenta usar os textos patrísticos para atacar a fé da Igreja.

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Catolicismo Primitivo (3) - Santo Inácio de Antioquia

Por José Miguel Arráiz

Tradução: Carlos Martins Nabeto (apologeticacatolica.com.br)

Você pode lê-lo em Português, Inglês, Espanhol

San Ignacio de Antioquía

Artigos publicados nesta série

Introdução - A Didaqué - São Clemente Romano - Santo Inácio de Antioquia

Santo Inácio de Antioquia foi discípulo de São Paulo e de São João, e o segundo sucessor de São Pedro como bispo na Sé de Antioquia. Nasceu entre os anos 30 e 35 d.C. e morreu mártir, devorado pelas feras, em janeiro de 107, durante o reinado do imperador romano Trajano. A caminho de Roma, escreveu sete epístolas dirigidas às igrejas de Éfeso, Magnésia, Trália, Filadélfia, Esmirna, Roma e uma carta a São Policarpo. 

[Conheçamos a sua doutrina:] 

DIVINDADE DE CRISTO 

Graças a Santo Inácio, temos o testemunho de um discípulo direto dos Apóstolos, que nos ajuda a compreender quão clara era, na Igreja Primitiva, a consciência sobre a divinidade de Cristo, o que é bastante útil para nós na hora de combater os ataques de algumas seitas. 

Os Testemunhas de Jeová e outras seitas de orientação ariana[1], por exemplo, negam que os primeiros cristãos acreditavam e aceitavam a divinidade de Jesus Cristo. Para essas seitas, Jesus Cristo não seria verdadeiro Deus, não teria compartilhado a natureza do Pai e do Espírito Santo; seria apenas uma criatura. Nós, católicos, pelo contrário, professamos crer em um só Deus em Três Pessoas divinas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os quais compartilham uma mesma natureza divina. 

Essas seitas supõem que a doutrina da divinidade de Cristo foi imposta como resultado das manipulações do imperador Constantino durante o século IV, que quis divinizar Cristo com fins políticos. Nas epístolas de Santo Inácio, no entanto, encontramos um testemunho com vários séculos de antecedência, demonstrando que logo de início já se aceitava a plena divinidade de Jesus Cristo. Sobre isso, escreve Santo Inácio em suas cartas: 

Há um só Deus, o qual manifestou a Si mesmo por meio de Jesus Cristo, seu Filho, que é sua Palavra, que procedeu do silêncio e agradou em tudo Aquele que O tinha enviado.” (Carta aos Magnésios 8,1) 

“Inácio, por sobrenome 'Portador de Deus', à abençoada na grandeza plena de Deus; à predestinada desde antes dos séculos a servir para sempre, para glória duradoura e impassível, glória unida e eleita por graça da verdadeira paixão e por vontade de Deus Pai e de Jesus Cristo, nosso Deus; à igreja digna de toda bem-aventurança, que está em Éfeso da Ásia: minha cordialíssima saudação em Jesus Cristo e na alegria imaculada.”
(Carta aos Efésios 1) 

Admite com palavras simples os pontos chaves da Cristologia católica, inclusive o dogma da encarnação: 

“No entanto, há um médico que é carnal e também espiritual; gerado e não-gerado; na carne feito Deus, filho de Maria e Filho de Deus; primeiro passível e depois impassível: Jesus Cristo, nosso Senhor.” (Carta aos Efésios 7,2)

“Desde então restou destruída toda feitiçaria e desapareceu toda iniquidade. Derrotada, restou a ignorância; desfeito o antigo império desde o momento em que Deus se manifestou feito homem.”
(Carta aos Efésios 19,1) 

“A verdade é que nosso Deus, Jesus, o Ungido, foi carregado por Maria em seu seio, conforme a dispensação de Deus; com certeza, da linhagem de Davi; entretanto, por obra do Espírito Santo, nasceu e foi batizado, a fim de purificar a água com sua Paixão”
(Carta aos Efésios 18,2). 

Ao longo de suas epístolas, continua uma vez e outra reconhecendo Jesus Cristo como seu Deus, ao mesmo tempo que afirma que existe um só Deus: 

“Inácio, por sobrenome 'Portador de Deus': à Igreja que alcançou misericórdia na magnificência do Pai altíssimo e de Jesus Cristo, seu único Filho; à que é amada e encontra-se iluminada por vontade Daquele que quis que todas as coisas existissem, segundo a fé e a caridade de Jesus Cristo, nosso Deus.” (Carta aos Romanos 1) 

“Permití que eu seja imitador da Paixão do meu Deus.”
(Carta aos Romanos 4,3) 

“Eu glorifico a Jesus Cristo, Deus, que é quem vos fez sábios até esse ponto, pois muito bem me dei conta de quão apercebidos estais da fé impassível, como se estivésseis cravados, em carne e espírito, na cruz de Jesus Cristo.”
(Carta aos Esmirniotas 1,1) 

Diante da heresia dos gnósticos, que sustentava que Cristo não possuía um corpo real mas só aparente e, portanto, havia apenas aparentemente sofrido na cruz, afirma implicitamente a doutrina tradicional católica, explicada posteriormente através do termo “união hipostática”: Cristo é verdadeiro Deus, mas também é verdadeiro homem: 

“Eu, da minha parte, sei disto muito bem e Nele ponho minha fé: que, depois da sua ressurreição, permaneceu o Senhor em sua carne. E assim, quando se apresentou a Pedro e aos seus companheiros, disse-lhes: "Tocai-me, apalpai-me e vede como eu não sou um espírito incorpóreo". E tocaram e creram, ficando compenetrados com sua carne e com seu espírito. Por isso, desprezaram a própria morte, ou melhor, se mostraram superiores à morte. É ainda mais: depois da sua ressurreição, comeu e bebeu com eles, como homem de carne que era, se bem que espiritualmente fosse uma só coisa com seu Pai.” (Carta aos Esmirniotas 3,3) 

Santo Inácio também rejeita um dos elementos que chegaria a ser chave na doutrina do Arianismo: considerar Jesus Cristo como um ser criado ou, o que dá no mesmo, supor que houve um momento no tempo em que Jesus Cristo não existiu. Para ele, pelo contrário, Cristo está acima do tempo e é Intemporal: 

“...espera Aquele que está acima do tempo, o Intemporal; o Invisível, que por nós se fez visível; o Impalpável, o Impassível, que por nós se fez passível: Aquele que por todos os modos sofreu por nós?” (Carta a Policarpo 3,2) 

EUCARISTIA 

É muito mais explícito que a Didaqué em admitir a presença real de Cristo na Eucaristia, doutrina esta que na Antiguidade foi também rejeitada pelas heresias de origem gnóstica. Para os Docetas, uma seita gnóstica da época, o pão e vinho consagrados não podiam se converter realmente no corpo e sangue de Cristo, já que partiam da concepção acima mencionada, de que Cristo não teria tido um corpo real mas só aparente. Santo Inácio, contrariamente a isto, reafirmou a fé tradicional da Igreja: 

“Afastam-se [os Docetas] também da Eucaristia e da oração porque não confessam que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, a mesma [carne] que padeceu pelos nossos pecados; a mesma [carne] que, por sua bondade, o Pai ressuscitou. Assim, pois, os que contradizem o dom de Deus morrem e perecem nas suas digressões. Quão melhor seria para eles celebrar a Eucaristia, a fim de que ressuscitassem! Convém, portanto, afastar-se dessas pessoas e nem privada nem publicamente falar com elas.” (Carta aos Esmirniotas 7,1-2)

Provavelmente inspirado no capítulo 6 do Evangelho de João, chama a Eucaristia de “remédio da imortalidade” e a sua carne de “pão de Deus”: 

“...começando de um mesmo pão, que é remédio de imortalidade, antídoto para não morrer, mas viver para sempre em Cristo Jesus” (Carta aos Efésios 20,2) 

“Não sinto prazer pela comida corruptível, nem me atraem os deleites desta vida. Eu quero o pão de Deus, que é a carne de Jesus Cristo, da linhagem de Davi; eu quero o seu sangue por bebida, que é amor incorruptível.”
(Carta aos Romanos 7,3) 

“Colocai, pois, todo empenho em fazer uso de uma única Eucaristia, porque uma única é a carne de Nosso Senhor Jesus Cristo e um só cálice para nos unir com o seu sangue; um só altar assim como não há mais que um só bispo, juntamente com o colégio de anciãos e com todos os diáconos, meus companheiros. Desta forma, tudo quanto fizeres, o fareis segundo Deus.”
(Carta aos Filadélfios 4) 

Admite por válida somente a Eucaristia celebrada por um bispo que conte com uma legítima sucessão apostólica: 

Somente esta Eucaristia pode ser tida por válida: a que se celebra sob o bispo ou sob aquele a quem ele o encarregou (...) Não é lícito, sem o bispo, nem batizar nem celebrar ágapes.” (Carta aos Esmirniotas 8,1) 

Exorta também os cristãos a celebrarem a Eucaristia frequentemente: 

“Portanto, empenhai-vos em vos reunir com mais frequência para celebrar a Eucaristia de Deus e tributar-lhe glória.” (Carta aos Efésios 13,1) 

A IGREJA CATÓLICA E A SUA CONSTITUIÇÃO HIERÁRQUICA

De Santo Inácio temos o primeiro testemunho que foi conservado onde se chama a Igreja cristã de “Igreja Católica”. Escreve: “onde quer que esteja Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica”. Lança também muita luz sobre a organização hierárquica da Igreja de seu tempo, pois dirige as suas cartas a igrejas destinatárias que contavam com uma hierarquia tripartida perfeitamente definida: um bispo que as governava (episcopado monárquico), um colégio de presbíteros subordinado a ele, e um ou mais diáconos: 

“Seguí todos o bispo, como Jesus Cristo [segue] o Pai; e o colégio de anciãos como os Apóstolos; quanto aos diáconos, reverenciai-os como o mandamento de Deus. Sem contar com o bispo, ninguém faça nada que preocupe a Igreja. Somente tenha-se por válida aquela Eucaristia celebrada pelo bispo ou por quem dele possua autorização. Onde quer que apareça o bispo, aí esteja a multidão, de modo que onde quer que esteja Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica. Sem contar com o bispo, não é lícito nem batizar nem celebrar a Eucaristia; mas - melhor - aquilo que ele aprovar, isso é também agradável a Deus, a fim de que tudo o que fizeres seja seguro e válido.” (Carta aos Esmirniotas 8,1-2) 

“Como quiser, pois, que nas pessoas supra citadas contemple na fé toda vossa multidão e a todos vos cobre amor, eu vos exorto a que coloqueis empenho por fazer tudo na concórdia de Deus, presidindo o bispo, que ocupa o lugar de Deus; e os anciãos, que representam o colégio dos Apóstolos; e tendo os diáconos, para mim dulcíssimos, confiado o ministério de Jesus Cristo, aquele que antes dos séculos estava junto do Pai e se manifestou no últimos tempos.”
(Carta aos Magnésios 6,1) 

“Segue-se daí que convém para vós correr unidos com o sentir do vosso bispo, que é justamente o que já fazeis. Com efeito, vosso colégio de anciãos, digno do nome que carrega, digno outrossim de Deus, está com efeito harmoniosamente concentrado com o seu bispo, como as cordas de uma lira.”
(Carta aos Efésios 4,1) 

“Assim, pois, tive a sorte de ver todos vós na pessoa de Damas, vosso bispo, digno de Deus; e de vossos dignos presbíteros Baixo e Apolônio; assim como do diácono Socião, meu companheiro, de quem oxalá fosse dado a mim me alegrar, pois se submete ao seu bispo como à graça de Deus e ao colégio de anciãos como à lei de Jesus Cristo.”
(Carta aos Magnésios 2,1) 

O mesmo se observa ao longo das suas epístolas (Carta aos Efésios 1,3; 3,2; 4,1; Carta aos Magnésios 2; 3,1; 6,1; 7,1; 13,1; 15,1; Carta aos Tralianos 1,1; 3,1; 12,2; Carta aos Filadélfios 1; 3,2; 7,1-2; Carta a Policarpo 1; 6,1; Carta aos Esmirniotas 8,1-2; 12,2). 

Algo importante em tudo isto é que Santo Inácio fala para um público que assume com ele conhecer bem esta estrutura hierárquica adotada por todas as igrejas cristãs: 

“Mas como a caridade não me permite calar acerca de vós, daí o meu propósito em exortar-vos para que corrais todos unidos com o pensamento e o sentir de Deus, pois Jesus Cristo, vida nossa, de quem nada é capaz de nos separar, é o pensamento do Pai, do mesmo modo que também os bispos, estabelecidos pelos confins da terra, estão no pensamento e no sentir de Jesus Cristo.” (Carta aos Efésios 3,2)

Isto apoia a tese tradicional de que o episcopado monárquico teve a sua origem nos próprios Apóstolos e, portanto, no próprio Jesus Cristo, e não foi, como crê boa parte da teologia contemporânea[2], um desenvolvimento tardio da doutrina cristã. Acerca disto, explica o historiador e patrólogo Daniel Ruiz Bueno: 

“Este foi por longo tempo outro dos tropeços da crítica para admitir a autenticidade das cartas de Santo Inácio, pois com elas deveria se engolir um episcopado monárquico e uma hierarquia perfeitamente definida nos finais do século I, fazendo cair por terra muitas teorias respeitáveis. Porém, as teorias são teorias e os textos são textos. Pois bem: os textos das cartas inacianas nos atestam com absoluta transparência e com uma repetitiva insistência que cada Igreja – Antioquia, Esmirna, Éfeso, Trália, Filadélfia – tem à sua cabeça um "επίσκοπος" (intendente, inspetor), autoridade suprema na comunidade; e que se acrescenta como dependente e subordinado seu, um "πρεσβυτέριον", colégio de “anciãos”, que lhe assiste como uma espécie de “senado”; e [ainda] um terceiro corpo de diáconos ou ministros.”[3]

O historiador católico José Orlandis acresce: 

“Muitas igrejas do século I foram fundadas pelos Apóstolos e, enquanto estes viveram, permaneceram sob a sua autoridade superior, dirigidas por um colégio de presbíteros, que ordenava sua vida litúrgica e disciplinar. Este regime pode ser atestado especialmente nas igrejas paulinas, fundadas pelo Apóstolo dos Gentios. Porém, à medida que os Apóstolos foram desaparecendo, generalizou-se em toda parte o episcopado monárquico, que já havia se introduzido desde um primeiro momento em outras igrejas particulares. O bispo era o chefe da Igreja, pastor dos fiéis, e enquanto sucessor dos Apóstolos, possuía a plenitude do sacerdócio e o poder necessário para o governo da comunidade.”[4] 

A HERESIA E O CISMA 

Para Santo Inácio a sucessão dos bispos em linha direta até os Apóstolos é um dos pilares necessários para que a Igreja se mantenha incorruptível e não ceda à tentação de cair em heresias e cismas: 

“Assim, estando no meio deles, dei um grito, clamei com voz forte, com voz de Deus: "Atenção ao vosso bispo, ao colégio de anciãos e aos diáconos!". Certamente houve quem suspeitasse que eu disse isso por saber de antemão da divisão de alguns deles; porém, aponto por testemunha Aquele por quem carrego estas correntes, que não o soube pela carne humana. Antes, foi o Espírito quem me deu este anúncio: "Guardai a vossa carne como templo de Deus. Amai a união. Fugí das divisões. Sede imitadores de Jesus Cristo, como também Ele o é de seu Pai".” (Carta aos Filadélfios 7,1-2) 

“Eu vos exorto ― porém não eu, mas a caridade de Jesus Cristo ― que useis só do alimento cristão e vos abstenhais de toda erva alheia, que é a heresia. Os hereges entrelaçam Jesus Cristo em suas próprias especulações, apresentando-se como dignos de todo crédito, quando são de fato como aqueles que brindam um veneno mortífero diluído em vinho e mel. O incauto que deliciosamente o toma, bebe em funesto prazer a sua própria morte. Alerta, pois, contra esses tais! E assim será sob condição de que não vos envaideceis e vos mantenhais inseparáveis de Jesus Cristo, Deus, de vosso bispo e das ordens dos Apóstolos. O que está dentro do altar é puro; mas o que está fora do altar, não é puro. Quero dizer: aquele que faz algo pelas costas do bispo e do colégio dos anciãos, esse não está puro e limpo em sua consciência.”
(Carta aos Tralianos 6-7). 

Identifica a heresia como um pecado gravíssimo, inclusive mais grave que o adultério, porque corrompe a verdadeira fé: 

“Pois bem: se os que cometem esse pecado (=adultério) segundo a carne merecem a morte, quanto mais aquele que corrompe, com sua má doutrina, a fé de Deus, pela qual Jesus Cristo foi crucificado! Esse tal, convertido em um impuro, irá para o fogo inextinguível e, da mesma forma, quem quer que o escute. O motivo, justamente, pelo qual o Senhor consentiu receber unguento sobre a sua cabeça foi para infundir incorrupção à Igreja. Não vos deixeis ungir com o pestilento unguento da doutrina do príncipe deste mundo; não seja que vos leve cativos para longe da vida que nos foi proposta como prêmio.” (Carta aos Efésios 16,2; 17,1-2) 

“Que ninguém, pois, vos engane, como de fato não vos deixais enganar sendo como sois: inteiramente de Deus. Porque como é certo que nenhuma heresia, que pudesse vos atormentar, tem assento entre vós, isso é prova de que viveis segundo Deus.”
(Carta aos Efésios 8,1) 

Acrescenta também que aqueles que caíram em heresia podem se arrepender e voltar ao seio da Igreja Católica: 

“Pois bem, pelo que me toca, fiz o que deveria fazer como homem sempre disposto à união, porque onde há divisão e ira Deus não habita. O Senhor perdoa a todos que se arrependem, sob a condição de que o seu arrependimento termine na unidade de Deus e no senado do bispo. Eu confio na graça de Jesus Cristo: Ele desatará de vós toda ligadura. No entanto, eu vos exorto para que nada façais por espírito de contenda, mas o que se espera dos discípulos de Cristo.” (Carta aos Filadélfios 8,1-2) 

“Afastai-vos das ervas daninhas, que Jesus Cristo não cultiva, pois os hereges não são plantação do Pai. E não digo isso porque eu encontrasse divisão entre vós; o que eu encontrei foi limpeza. E é assim que, quantos são de Deus e de Jesus Cristo, esses são os que estão do lado do bispo. Agora que, quantos, arrependidos, voltarem à unidade da Igreja, também esses serão de Deus, a fim de que vivam conforme Jesus Cristo. Não vos enganeis, meus irmãos. Se alguém segue um cismático, não herda o reino de Deus. Quem caminha com sentir alheio à Igreja, esse não pode ter parte na Paixão do Senhor.”
(Carta aos Efésios 8,1) 

Importante é, ademais, congregar na comunidade da Igreja; esta atitude contrasta com a do soberbo que diz ter fé porém não acorre à reunião dos fiéis: 

“Que ninguém se engane: se alguém não está dentro do âmbito do altar, está privado do pão de Deus. Porque se a oração de um ou dois tem tanta força, quanto mais a do bispo juntamente com toda a Igreja! Assim, pois, aquele que não acorre à reunião dos fiéis, esse já é um soberbo e ele mesmo pronuncia a sua própria sentença. Porque está escrito: "Deus resiste aos soberbos". Coloquemos, portanto, empenho em não resistir ao bispo, a fim de estarmos submetidos a Deus.” (Carta aos Efésios 5,2-3) 

JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ

Sua doutrina sobre a justificação está em consonância com a de todos os primeiros Padres: somos justificados pela fé, porém pela fé que segue unida à caridade; portanto, a fé que salva é aquela que é verdadeira fidelidade, que nos leva a permanecer unidos e firmes na obediência a Deus e aos seus mandamentos até o fim: 

“Os carnais não podem praticar as obras espirituais, nem os espirituais as carnais, de modo que a fé não sofre as obras da infidelidade nem a infidelidade as da fé. No entanto, ainda o que fazeis segundo a carne se converte em espiritual, pois tudo o fazeis em Jesus Cristo.” (Carta aos Efésios 8,2) 

“Nada disso se oculta de vós, já que tens em pleno grau para com Jesus Cristo aquela fé e caridade que são princípio e termo da vida. O princípio, quero dizer, a fé; o termo, a caridade. As duas, travadas em unidade, são Deus, e tudo o mais que preocupe à perfeição e santidade se segue delas. Ninguém que proclama a fé peca; nem ninguém que possui a caridade cansa. A árvore se manifesta pelos seus frutos. Do mesmo modo, os que professam ser de Cristo, por suas obras se porão de manifesto, porque agora o negócio não é proclamar a fé, mas se manter fortemente nela até o fim.”
(Carta aos Efésios 14,1-2) 

Está claro que ele pensava, diferentemente dos reformadores protestantes, que a salvação era algo que se poderia perder se não se permanecesse em estado de graça. Tanto é assim que ele pede orações pela sua salvação, para que fosse encontrado digno e não reprovado no momento de morrer: 

“Eu peço a Deus que me escuteis com amor e que a minha carta não se converta em testemunho contra vós. Rogai também por mim, pois preciso da vossa caridade perante a misericórdia de Deus, a fim de tornar-me digno daquela herança que me toca alcançar e não ser declarado réprobo.” (Carta aos Tralianos 12,3) 

PRIMADO DA SÉ ROMANA

Ainda que ao longo das suas cartas Santo Inácio não toque no tema da primazia jurisdicional da igreja de Roma como Sé dos sucessores de São Pedro, não passa despercebido a uma leitura atenta das suas cartas o tom distinto que emprega ao se dirigir à igreja de Roma. Você pode fazer esse exercício e comparar a saudação que ele dirige a cada uma das diferentes igrejas com a saudação que ele dirige àquela que “preside em Roma”, que foi “colocada à cabeça da caridade”. O tom chama a atenção não só pela quantidade de louvores e elogios, mas pela deferência própria de quem se dirige a um superior, dando a entender que Roma presidia sobre as demais igrejas e não só sobre o seu próprio território: 

“Inácio, por sobrenome 'Portador de Deus': à Igreja que alcançou misericórdia na magnificência do Pai altíssimo e de Jesus Cristo, seu único Filho; à que é amada e está iluminada pela vontade Daquele que quis que todas as coisas existissem segundo a fé e a caridade de Jesus Cristo, nosso Deus; à igreja, ademais, que preside na capital do território dos romanos, digna de Deus, digna de todo decoro, digna de toda bem-aventurança, digna de louvor, digna de alcançar o que deseja, digna de toda santidade e colocada à cabeça da caridade, seguidora que é da lei de Cristo e adornada com o nome de Deus: minha saudação no homem de Jesus Cristo, Filho do Pai...” (Carta aos Romanos, Prólogo) 

E ao estar colocada “à cabeça da caridade”, instrui também as demais igrejas e a própria igreja da qual Santo Inácio é bispo: 

“Jamais invejastes ninguém; a outros ensinastes a não invejar. Agora, pois, o que eu quero é que o que a outros mandais fazer quando os instruís como que a discípulos do Senhor, seja também firme em relação a mim. A única coisa que haveis de pedir para mim é força, tanto interior quanto exterior, a fim de que eu não só fale como também esteja decidido; quero dizer, para que não somente eu me chame cristão como também para que eu me mostre como tal.” (Carta aos Romanos 3,1) 

Significativo também que, embora não deixe o cuidado da sua igreja a nenhuma outra, o faz em relação a Roma, pedindo que exerça nela o oficio de bispo: 

“Lembrai-vos em vossas orações da igreja da Síria, que tem agora Deus por pastor no meu lugar. Só Jesus Cristo e a vossa caridade exercerão nela o oficio de bispo.” (Carta aos Romanos 9) 

Deduz-se também que Santo Inácio conhecia bem o fato de que a igreja de Roma fôra governada por São Pedro e São Paulo: 

Eu não vos dou ordens como Pedro e Paulo. Eles foram Apóstolos e eu não sou mais que um condenado à morte; eles foram livres e eu, até o presente, sou um escravo...” (Carta aos Romanos 4,3) 

VIRGINDADE DE MARIA

Santo Inácio fala da virgindade de Maria como de um milagre tão assombroso que ficou oculto a Satanás, ainda que não seja suficientemente explícito se estava se referindo somente à virgindade antes do parto ou, ainda, à virgindade durante e após o parto: 

Restou oculta ao príncipe deste mundo a virgindade de Maria e o seu parto, do mesmo modo que a morte do Senhor: três mistérios sonoros que se cumpriram no silêncio de Deus” (Carta aos Efésios 19,1)

O DOMINGO COMO DIA DO SENHOR 

Os Adventistas do Sétimo Dia e outras seitas sabatistas acusam a Igreja Católica de substituir o sábado pelo domingo como dia de repouso, violando o mandamento de Deus. Asseguram também que esta mudança foi devida a manipulações do imperador Constantino durante o século IV, para impor “às ocultas” o culto ao Deus Sol. 

No entanto, quase três séculos antes, Santo Inácio afirmou que aqueles que guardavam o sábado e não o domingo como os cristãos haviam deixado se enganar por doutrinas estranhas e terminaram judaizando; porém os cristãos guardavam o domingo como dia do Senhor já que foi este o dia em que o Senhor ressuscitou: 

“Não vos deixeis enganar por doutrinas estranhas nem por esses velhos contos que não servem para nada, porque se até o presente vivemos ao estilo de judeus confessamos não ter recebido a graça (...) Pois bem: os que foram criados na antiga ordem das coisas vieram à novidade da esperança, não guardando já o sábado, mas vivendo segundo o domingo, dia em que também amanheceu nossa vida pela graça do Senhor e pelo mérito da sua morte ― mistério que alguns negam - sendo que por Ele recebemos a graça de crer e por Ele sofremos a fim de sermos encontrados como discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre.” (Carta aos Magnésios 8,1; 9,1) 

Coisa absurda é ter Jesus Cristo na boca e viver judaicamente, porque não foi o Cristianismo que acreditou no Judaísmo, mas o Judaísmo no Cristianismo, no qual toda língua que crê em Deus foi congregada.”
(Carta aos Magnésios 10,3) 

Mas se alguém vem até vós com interpretações sobre Judaísmo, não o escuteis, porque mais vale ouvir o Cristianismo dos lábios de um homem circunciso do que o Judaísmo dos lábios de um incircunciso.”
(Carta aos Filadélfios 6,1) 

É provável que estas advertências se devam ao fato de haver então alguns cristãos que se agarravam às antigas ordenanças da Lei Mosaica (circuncisão, dízimo, sábado como dia de repouso, alimentos impuros), conflito que deixou rastro já no Novo Testamento e que desencadeou o Concílio de Jerusalém (Atos 15). O próprio São Paulo, de quem Santo Inácio foi discípulo, já no Novo Testamento havia advertido na mesma linha: 

“Portanto, que ninguém vos critique por questões de comida ou bebida, ou a propósito de festas, novilúnios ou sábados.” (Colossenses 2,16)

MATRIMÔNIO E CELIBATO 

Santo Inácio segue a mesma linha de São Paulo a respeito de suas recomendações sobre o celibato e o matrimônio. O apóstolo dos gentios havia escrito à comunidade de Corinto que o celibato era o estado ideal para servir o Senhor: 

“Digo aos solteiros e às viúvas: é bom que fiquem como eu. Porém se não podem se conter, que se casem; melhor é casar do que abrasar (...) O não-casado se preocupa das coisas do Senhor, de como agradar o Senhor. O casado se preocupa das coisas do mundo, de como agradar a sua mulher, restando dividido” (1Coríntios 7,8-9.33-34) 

As recomendações de Santo Inácio são praticamente idênticas: 

“Igualmente, prega a meus irmãos, em nome de Jesus Cristo: amem as suas esposas como o Senhor ama a Igreja. Se alguém se sente capaz de permanecer casto para honrar a carne do Senhor, que assim permaneça sem vaidade; se se envaidece, estará perdido; e se se considerar mais que o bispo, estará corrompido. Quanto aos que se casam, esposos e esposas, convém que celebrem o seu enlace com conhecimento do bispo, a fim de que o casamento seja conforme o Senhor e não só por desejo. Que tudo se faça para a honra de Deus.” (Carta a Policarpo 5,1-2) 

DESPREENDIMENTO E POBREZA ESPIRITUAL

A perspectiva da Igreja Primitiva no tocante à importância dos bens materiais e do despreendimento dos mesmos era muito diferente das teologias heréticas contemporâneas que circulam e se popularizam em comunidades eclesiais protestantes e, inclusive, em algumas comunidades católicas. Diferentemente, por exemplo, do que se conhece como “teologia da prosperidade”, para Santo Inácio os bens deste mundo e inclusive a vida não valem nada em comparação com a vida eterna, motivo pelo qual a cobiça é um estorvo, um obstáculo: 

De nada me aproveitarão os confins do mundo, nem todos os reinos deste século. Para mim, é melhor morrer em Jesus Cristo do que ser rei dos termos da terra.” (Carta aos Romanos 6,1) 

Não tenhais Jesus Cristo na boca e, depois, querais cobiçar o mundo.”
(Carta aos Romanos 7,1)

NOTAS

[1] O Arianismo é uma heresia do século IV que tomou seu nome de Ário (256-336), sacerdote de Alexandria e depois bispo líbio, que a partir do ano 318 propagou a ideia de que não há três pessoas em Deus mas apenas uma única pessoa: o Pai. Jesus Cristo não era Deus, mas teria sido criado por Deus a partir do nada como ponto de apoio para o seu Plano. O Filho seria, portanto, criatura e o ser do Filho teria um princípio; teria havido, assim, um tempo em que Ele não existia. Ao sustentar esta teoria, negava a eternidade do Verbo, o que equivalia negar a sua divindade. A partir desta perspectiva, Jesus não é verdadeiramente Deus. Ainda que Ário se tenha ocupado principalmente de despojar Jesus Cristo da divindade, fez o mesmo com o Espírito Santo, que ele igualmente percebia como criatura, sendo inclusive inferior ao Verbo.

[2] Foi se tornando cada vez mais comum entre os teólogos modernos aceitar a hipótese do desenvolvimento tardio do episcopado monárquico, como explica Francis A. Sullivan em sua obra "From Apostles to Bishops" (="Dos Apóstolos aos Bispos"), The Newman Press, Nova Iorque, 2001. Esse autor aliás, no seu livro, adere a essa hipótese.

[3] Daniel Ruiz Bueno, "Padres Apostólicos", Biblioteca de Autores Cristianos, nº 65, Madri, 5ª ed., 1985, pp. 421-422.

[4] José Orlandis, "Breve História do Cristianismo", Edições RIALP, Madri, 6ª ed., 1999, pp. 25-26.

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